Após três décadas vivendo sob ditadura, os egípcios iniciaram uma revolução exigindo pão, liberdade e justiça social. Depois de uma ocupação quase utópica da praça Tahir, que durou 18 dias, nos libertamos de Mubarak e começamos a segunda e mais difícil tarefa: acabar com o seu aparato de poder. Mubarak se foi, mas o regime militar ainda persiste. Por isso, a revolução continua – pressionando, ocupando as ruas e clamando pelo direito de controlar nossas próprias vidas e modos de viver contra a repressão que abusou do povo egípcio por anos. Mas agora, pouco tempo depois de ter começado, a revolução está sendo atacada. Nós escrevemos esta carta para contar a vocês sobre o que estamos vendo, como vamos enfrentar essa ofensiva e também para pedir a sua solidariedade.
25 e 28 de janeiro, 11 de fevereiro: você viu esses dias, viveu esses dias conosco, através da televisão. Mas nossa luta continuou nos dias 25 de fevereiro, 9 de março, 9 de abril, 15 de maio, 28 de junho, 23 de julho, 1º de agosto, 9 de setembro, 9 de outubro. Em vários episódios o exército e a polícia nos atacam, agridem, prendem e nos matam. E nós resistimos, nós continuamos; em alguns desses dias nós perdemos, em outros, ganhamos, mas nunca sem ter algum custo. Mais de mil pessoas deram a sua vida para derrubar Mubarak. Muitos outros se juntaram a eles, na morte, desde então. Nós continuamos a luta para que as mortes deles não tenham sido em vão. Nomes como Ali Maher (um manifestante de 15 anos, assassinado pelo exército, na praça Tahir, em 9 de abril), Atef Yehia (atingido por um tiro na cabeça por forças de segurança durante um protesto em solidariedade à Palestina, em 15 de maio), Mina Danial (assassinada pelo exército durante um protesto em frente à Masepro, em 9 de outubro). Mina Daniel, mesmo depois de morto, sofre com a perversa humilhação de estar na lista de acusados pelo episódio de 9 de outubro, elaborada pela procuradoria militar.
Alem disso, desde que a junta militar tomou o poder, pelo menos 12.000 de nós estão sendo julgados por tribunais militares, impedidos de convocar testemunhas de defesa e com acesso limitado a advogados. Menores estão detidos em prisões para adultos, sentenças de morte estão sendo distribuídas e a tortura está sendo praticada por todos os lados. Mulheres que participaram das manifestações foram vítimas de abuso sexual por parte do Exército, em forma de “prova de virgindade”.
Em 9 de outubro, o exército massacrou 28 manifestantes em Maspero; eles passaram por cima de nós com tanques e abriram fogo contra nós enquanto manipulavam a mídia estatal na tentativa de incitar a violência sectária. A história foi censurada. Os militares estão se auto-investigando sobre o caso. Eles estão mirando sistematicamente aqueles de nós que se expõem, que falam. Neste domingo, nosso camarada e blogueiro Alaa Abd El Fattah foi preso sob acusações falsas. Hoje ele passará mais uma noite numa cela sem iluminação.
Todos esses acontecimentos vêm do exército que supostamente está garantindo a transição para a democracia, que afirmou defender a revolução, e que parece estar convencendo tanto os egípcios como a comunidade internacional de que está cumprindo com tal arranjo. O discurso oficial tem sido o de assegurar a “estabilidade”, com nenhuma afirmação de que o exército está somente preparando o terreno para as futuras eleições. Mas mesmo com a eleição de um novo parlamento, nós ainda teremos de viver sob o governo de uma junta que tem autoridade sobre os poderes legislativo, executivo e judiciário, sem nenhuma garantia de que esse controle irá terminar algum dia. Todos aqueles que desafiaram esse esquema foram seqüestrados, presos e torturados; julgamentos militares para civis é a primeira estratégia dessa repressão. As prisões estão cheias de vítimas dessa “transição”.
Agora nós nos recusamos a cooperar com tais julgamentos e acusações vindas do Exército. Nós não vamos nos render e nos recusamos a responder interrogatórios. Se eles nos querem, que venham nos tirar dos nossos lares e locais de trabalho.
Nove meses depois desta nova repressão militar, ainda lutamos por nossa revolução. Nós estamos marchando, ocupando, lutando e fechando tudo. E você, também, está marchando, ocupando, lutando e fechando tudo. Nós sabemos de todo o apoio que recebemos em janeiro, que o mundo acompanhou nossa revolução de perto e que até se inspirou nela. Nós nos sentimos, mais do que nunca, próximos a você. Nós estamos acompanhando as suas lutas, os seus movimentos e agora é a sua vez de nos inspirar. Nós marchamos até a Embaixada dos EUA, no Cairo, para protestar contra a violenta expulsão durante a ocupação da Oscar Grand Plaza, em Oakland. Nossa força está na nossa luta em comum. Se eles sufocarem nossa resistência, o 1% vai vencer em Cairo, Nova Iorque, Londres, Roma, em todo lugar. Mas enquanto a revolução vive, nossa imaginação não conhece limites. Nós ainda podemos criar um mundo onde valha a pena viver.
Você pode nos ajudar a defender nossa revolução.
O G8, FMI e os países do Golfo estão prometendo um empréstimo de US$ 35 bilhões ao regime. Os EUA cedem ao Exército egípcio uma ajuda anual de US$ 1.3 bilhões. Governos ao redor do mundo continuam apoiando e fazendo alianças com os governantes militares do Egito. As balas com as quais eles nos matam são fabricadas nos EUA. O gás lacrimogênio que arde de Oakland à Palestina é fabricado no Wyoming. A primeira visita do primeiro-ministro britânico, David Cameron, ao Egito pós-revolução foi para assinar um acordo armamentício. Esses são só alguns exemplos. A vida, a liberdade e o futuro das pessoas devem parar de ser traficados em detrimento de objetivos estratégicos. Nós devemos nos unir contra governos que não compartilham com os interesses de seu povo.
Nós estamos chamando você para empreender ações de solidariedade que nos ajudem na oposição à repressão.
Nós estamos sugerindo um dia internacional para defender a revolução egípcia no dia 12 de novembro, com o slogan “Defenda a Revolução Egípcia – Pelo Fim dos Julgamentos Militares Contra Civis”.
Os eventos podem incluir:
- ações dirigidas a Embaixadas e Consulados Egípcios, exigindo a soltura dos civis sentenciados em tribunais militares. Se Alaa foi solto, devemos pedir também a liberação de milhares de outros
- ações direcionadas para que o seu governo coloque fim ao apoio à junta militar egípcia
- projetar vídeos sobre a repressão que sofremos (julgamentos militares, o massacre em Maspero) e nossa resistência contínua. Envie-nos um email para obter os links.
- realizar videoconferências com ativistas no Egito
- qualquer forma criativa de mostrar o seu apoio e mostrar que o povo egípcio tem aliados mundo afora.
Se você está organizando ou deseja organizar algum evento, envie um email para defendetherevolution@gmail.com . Nós também adoraríamos ver fotos e vídeos de qualquer evento que você esteja organizando.
Campanha pelo fim Pelo Fim dos Julgamentos Militares Contra Civis
Cerca de três mil pessoas se reuniram quarta-feira à noite em Oscar Grant Park para a maior manifestação do Occupy Wall Street desde que o movimento começou no dia 17 de setembro.
Depois de horas de discussão, em torno de 97% dos participantes da assembléia geral votaram por uma Greve Geral municipal no dia 2 de novembro. Manifestantes também pediram que a greve incluísse o porto de Oakland, o segundo maior da costa oeste.
Os manifestantes inicialmente se reuniram para retomar o parque público em resposta às ações brutais da polícia contra a manifestação pacífica da terça-feira, mais notavelmente em resposta à lesão gravíssima infligida contra o veterano de guerra Scott Olsen, 24 anos.
Oficiais da polícia atingiram Olsen na testa com uma bomba de gás lacrimogêneo (ou uma bala de borracha) à queima roupa. Quando alguns manifestantes tentaram fornecer cuidados médicos a Olsen, os policiais jogaram uma granada de luz contra o grupo. Até a manhã de quinta-feira, Olsen se encontrava em condição crítica e permanecia inconsciente, tendo sofrido traumatismo craniano e inchaço cerebral. Ao meio-dia, sua condição era estável e ele estava internado em uma unidade de terapia intensiva.
Como em muitas outras cidades, a ação policial contra os protestos foi supervisionada por um Democrata — neste caso, o prefeito Jean Quan. Numa tentativa de amortecer o ódio popular, Quan aceitou a retomada da Oscar Grant Plaza (Frank Ogawa Plaza) pelos manifestantes na quarta-feira.
Faixas dizendo “Pode acreditar, isto aqui é luta de classes”, “Digam ao prefeito Quan que a praça é do povo”, “O sistema não está quebrado: foi projetado assim”, e “O sangue está nas mãos da OPD [Departamento de Polícia de Oakland]” pontilhavam a multidão que crescia incessantemente conforme o grupo tentava realizar uma assembléia geral. Oficiais de polícia esperavam em peruas não identificadas.
A manifestação eclodiu em aplausos quando os organizadores leram um comunicado da Praça Tahrir. O tweet de um organizador egípcio dizia: “Amanhã em #Tahrir marcharemos na direção da #Embaixada dos EUA exigindo que eles parem a ofensiva contra o povo e parem de apoiar o #Scaf.” SCAF se refere ao Conselho Supremo das Forças Armadas, o governo militar egípcio apoiado pelos EUA.
O comunicado também anunciava que os manifestantes egípcios cantariam o slogan: “O Egito e Oakland são um só!”
A greve vai propositadamente coincidir com uma série de dias de passeata estudantis da Universidade da Califórnia e da Universidade do Estado da Califórnia. As passeatas culminarão na ocupação da reunião da Comissão de Regentes na Universidade da Califórnia, em São Francisco, em 16 de novembro, e do encontro da Comissão de Diretores da Universidade do Estado da Califórnia, em Long Beach, 17 de novembro.
Os burocratas regentes avaliarão uma proposta de um aumento de 81% nas taxas educacionais. As taxas mais que triplicaram durante a década atual. O plano dos diretores é votar por um aumento parecido. Um estudo recente pela Comissão Universitária afirma que essas duas universidades protagonizam os cortes orçamentários e aumentos das taxas educacionais no país.
Os Democratas no governo estadual planejam ceifar outros US$2,5 bilhões caso as estimativas de renda feitas no começo do ano se mostrem imprecisas. Vários relatórios predizem que os cortes serão feitos em dezembro, provavelmente resultando em demissões, menos salas de aula, e salas de aula com mais alunos. O WSWS conversou com diversos trabalhadores e jovens que participavam da assembléia de quarta-feira. “Eu apóio a greve geral. Precisamos levar a sério a tarefa de organizar os trabalhadores para nos ajudar, mas precisamos agir em conjunto. Isto é imediato.”, disse Hannah, uma jovem garçonete de São Francisco. “Precisamos manter o movimento”.
Quando questionada sobre o papel do Partido Democrata, Hannah expressou sua frustração em relação ao presidente Obama: “Obama é especialmente hábil na retórica desprovida de ação. ‘Mudança’ não significa nada se não é praticada”.
“As ações da polícia foram bizarras. Eles disseram que não usaram balas de borracha, e logo em seguida achamos várias!”
Don, um fotógrafo de Martinez, apoiou enfaticamente a convocação de greve: “Apóio totalmente a greve geral. A questão é que não podemos sair derrotados… eu apóio a greve porque as corporações não deviam ter poder nenhum sobre o governo. Elas estão comprando o governo porque elas tem o dinheiro pra isso.”
Lucas, um atendente de bar em Oakland, disse: “Eu apóio totalmente a proposta de greve geral. Quem está no poder precisa perceber que estamos putos. Todos precisam ir para a esquerda!”
Gabriel, professor de educação física e morador de Oakland de longa data, se emocionou conforme falava da necessidade de greve: “Nasci e fui criado em Oakland. Eu tenho que apoiar o povo! Nós estamos lutando pelos direitos do povo contra tudo o que está acontecendo.”
“Eu votei totalmente a favor da greve geral porque o que está acontecendo é errado — a sociedade e o governo deveriam ouvir o povo, e neste momento não estão ouvindo. Quando eles dizem que nos apóiam, é mentira, porque eles não nos apóiam. Se apoiassem, o Occupy Wall Street não estaria acontecendo.”
“Eu quero que o movimento chegue a um clímax positivo em que o povo esteja no poder — os trabalhadores — sem que ninguém seja excluído”.
Por fora, temos um saldo positivo jamais imaginado. De acordo com jornais locais, 67% da população de Nova Iorque manifesta aprovação ao que estamos fazendo. Ocupações se reproduzem pelo mundo inteiro. O país inteiro está discutindo o porque que essa gente está indignada. Estamos no parque, temos enorme estrutura, agora contando com as tão esperadas barracas, que finalmente nos protegem da chuva e do frio, e a polícia de NY nem se atreve mais a tentar remove-las.
Porque então, internamente o dia de ontem pareceu de pessimismo?
A cozinha e a estação de conforto ameaçaram cancelar suas atividades durante 3 dias, em resposta a um potencial descontrole sobre a ocupação.
Foi um dia de questionamento e debate, cujas respostas ainda não encontramos.
O tamanho da Liberty Plaza quase não comporta mais a quantidade de pessoas que frequentam ela quotidianamente. Entre turistas e curiosos, a atual preocupação é sobre quem são as pessoas que estão usufruindo dessa estrutura mas sem compromisso nenhum com a manutenção dela. Sinceramente, são muitas.
Outro problema que desmoraliza o grupo cada dia mais é a quantidade de roubos e brigas (até agora verbais) que estão ocorrendo na praça. Onde antes nos sentíamos em casa, agora mal posso dormir com a certeza de que na manhã encontrarei meus sapatos (Da última vez eles foram roubados!). Outro caso vergonhoso que assisti ontem foi quando o repórter do canal “Press TV”, ao mesmo tempo em que fazia uma cobertura super favorável a nossa causa, teve sua mala roubada com seu laptop dentro.
Sim, internamente estamos diante de um grande desafio:
Como lidar com estes problemas que são resultado deste mundo que queremos mudar?
As últimas ocorrências na Liberty Plaza refletem a sociedade em que vivemos, e não a que a OWS criou. Já antecipo a cobertura que a grande mídia já começa a fazer destes casos, citando coisas como “OWS não dá conta nem de sua própria casa”, ou que estamos apenas reproduzindo a lógica que domina lá fora. A estrutura convidativa e aberta da ocupação sempre permitiu que qualquer um participasse, da maneira que quisesse. Isso é um processo inclusivo. Recebemos na praça pessoas de diferentes caminhadas de vida, e uma grande parte delas vieram de uma caminhada de exclusão. Essa exclusão provoca paradoxos que temos que enfrentar a cada dia das nossas vidas. Quem disse que não enfrentaríamos isso WalL Street? Ontem ao dar a entrevista de 2 minutos para a Press Tv sobre esse caso, não tive tempo de expor todo este pensamento, saiu na TV ao vivo para a Europa inteira apenas a nossa preocupação com a praça. Mas esta praça existe para escancarar o mundo em que vivemos, e esta situação insegura e desconfiada é um importante aspecto dele. Que o mundo inteiro saiba e se responsabilize.
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O relato é de Vanessa Zettler, que está na ocupação em NY desde os primeiros dias do movimento.
A partir de ontem, definitivamente e irreversivelmente, o ‘Partido Comunista Grego’ não é mais que uma barreira contra as tentativas de enterrar o defunto parlamento.
Depois de Varkiza [1], do Polítecnico [2], da Escola de Química (1979), de dezembro de 2008 [4] e inúmeras outras ocasiões, a realidade veio mais uma vez revelar o papel do Partido, que sistematicamente trai as lutas populares. E se até este ponto eles reprimiram, com seus escritórios políticos, qualquer luta generalizada e determinada durante esses anos, se eles caluniaram todas as revoltas as chamando de ‘provocações’, a partir de agora a história mostra que não foram ‘meros erros políticos’, mas uma postura coordenada e consciente de defender a ditadura parlamentar, o capitalismo financeiro e as relações sociais. Isto foi o que fizeram ontem (20/10), mais uma vez, ainda que até aquele momento tivessem chamado as pessoas à participarem das manifestações para derrubar o governo. Eles esconderam a operação sorrateira do Parlamento e ao invés de cercá-lo, eles agiram de maneira ainda mais bárbara que a polícia, rachando crânios e entregando manifestantes para as forças de repressão. O pior de tudo do que fizeram foi legitimar o Estado, que matou um de seus camaradas, culpando uma violência para-estatal pelo assassinato .
A partir de ontem em diante, definitivamente e irreversivelmente, o ‘Partido Comunista Grego’ não é mais que uma barreira contra as tentativas de enterrar o defunto parlamento. Qualquer ser humano livre lutando por sua dignidade nesses dias cruciais deve tê-los como alvo político em retorno. Esta proposta não deve ser lida como um racha no movimento. Nós podemos ter problemas e objetivos comuns com os eleitores do “Partido Communista”, mas a política e a prática de liderança às quais eles estão submetidos segue palavra por palavra às ordens do governo e dos enviados do FMI, da EU e do BCE (Banco da Comunidade Européia). Nós nunca marchamos lado à lado com eles, eles nunca estarão conosco. Todos nós temos que lembrar que o “Partido Comunista” agirá como uma quinta coluna do regime ditatorial, na esperança de mais uma vez recolher migalhas da mesa do parlamento, como fez em 1990 [5].
A postura de todas agrupações políticas, parlamentares ou não, que apoiaram os atos do “Partido Comunista”, indiretamente pelo seu silêncio ou diretamente com suas afirmações, é igualmente condenável. Enquanto esses partidos estiverem em um parlamento composto de cumpridores de ordens da TROIKA (FMI, EU e BCE) e continuarem a receber seus salários gordos, serão inteiramente co-responsáveis pelo o que aconteceu até agora e pelo o que está por vir. Seus votos negativos aos memorandos e às leis combinadas revelam precisamente o papel deles na ditadura: eles fornecem o álibi da polifonia e da democracia, neste totalmente armado parlamento de representantes, para que as pessoas empobrecidas continuem contando votos em cada votação de leis fixa e predeterminada que abolem o seu futuro – enquanto alimentam a ilusão de que alguém responde por eles e pelos seus interesses. Assim, eles deixam a oposição para os profissionais da política, e não sentem a necessidade de reagir imediatamente e pessoalmente. Qualquer voto, mesmo para partidos extra-parlamentares da “extrema esquerda”, nas eleições locais e nacionais, não é nada mais que óleo nas engrenagens da máquina e a legitimação da “correção” da atual ditadura parlamentar.
Desde 25 de maio, quando nos reunimos na praça pela primeira vez, nós descubrimos a democracia direta como a capacidade de cada um de nós de participar, de consultar um ao outro, de modelar nossas idéias juntos e autonomamente, longe de rótulos ideológicos e parlamentares. Nós devemos permanecer aqui, contra a quebra do parlamentarismo e da burocracia deles.
NÓS ESTAMOS TOMANDO OS RUMOS DE NOSSAS VIDAS EM NOSSAS MÃOS
DEMOCRACIA DIRETA JÁ
Assembléia popular da praça Syntagma, 21/10/2011
1. Referência ao Tratado de Varkiza de 1945, em que o Partido Comunista traiu a luta armada e milhares de guerreiros da Guerra Civil em troca de sua legalidade no novo regime
2.Referência à postura original do Partido Comunista contra o Levante Politécnico de 1973, ao chamar os manifestantes de “provocadores de polícia”
3. Referência aos incidents de 1979 na Escola de Química de Atenas, em que membros do Partido Comunista desmontaram a ocupação da escola, cooperando diretamente com a polícia.
4. Uma referência, obviamente, à mais recente condenação da revolta de Dezembro de 2008
5. Referência a divisão de poder pelo Partido Comunista com os dois principais partidos parlamentares, ND e PASOK, em 1990
Nós do movimento Occupy Wall Street estamos em solidariedade com todas as ocupações que já estão em processo ou que se iniciarão ao redor do mundo a partir do dia 15 de outubro.
Afirmamos através de um processo horizontal, não hierárquico e verdadeiramente democrático e plural, a força que cada um de nós, enquanto unidos, possuímos. Essa força é o motor da mudança, do debate, da destruição e reconstrução de novos e antigos valores. Nossa arma mais poderosa é a resistência não violenta e criativa. Elegemos o exercício da reunião em assembléia como método principal para a tomada de decisões que estão em verdadeiro diálogo com as necessidades da nossa sociedade local e global.
Nossa inspiração é o tempo em que vivemos, o que vemos ocorrendo no mundo desde a Praça Tahrir, no Egito, as demonstrações na Grécia, as acampadas na Espanha, as revoltas no Chile, e muitos outros. Todos esses movimentos se comunicam conosco, e gritam por uma nova ordem social, econômica e política. Uma ordem em que nós, a população, somos os agentes com a voz e o poder de decisão sobre nossa sociedade. Vemos um movimento regido por indivíduos, onde cada voz pode falar ser ouvida em sua unidade, para que assim, o coletivo seja construído para todos. Que novas afiliações surjam a partir deste momento. Que os nossos valores maiores sejam os da solidariedade e da autonomia. Autonomia que traduz o poder que cada pessoa carrega dentro de si. Solidariedade que traduz o poder da união entre todos nós. Que entremos neste novo tempo com nossos corpos e mentes fortes, criativos e curiosos. Não queremos mais do mesmo.
Dia 15 de outubro, dia pela democracia de verdade. Estamos todos unidos. Chegou a vez de globalizar a revolução.
Quando o sistema força pessoas comuns a se tornarem revolucionárias, você sabe que você não está mais no Fim da História. Você está bem na sua beirada.
As Revoluções Tunisiana e Egípcia. A primavera árabe. O iminente calote grego. A cada vez mais provável quebra da zona do euro. A segunda onda da crise financeira global. O retorno vingativo da crítica sistêmica ao capitalismo. O ressoante chamado no mundo todo por democracia real. As manifestações dramáticas contra austeridade, desigualdade e neoliberalismo na Espanha, Grécia, Chile e Israel. As revoltas em Atenas, Londres e Roma. A ocupação de Wall Street e a difusão do movimento pelos EUA. Os protestos massivos de milhões de pessoas em 1000 cidades e em 80 países no dia 15 de 0utubro. Até a morte de Muammar Gaddafi.
Tudo isso aponta para a direção de uma simples mas inequívoca verdade: 2011 marca o Fim do Fim da História. Além do horizonte monótono da democracia liberal e do capitalismo global, os eventos deste ano não só abriram todo um novo capítulo no desenrolar da saga da humanidade, como colocaram os alicerces para um desfile sem fim dos capítulos a seguir. O que está sendo destruído não é tanto o sistema capitalista democrático como tal, mas a crença utópica que o sistema é o único modo de organizar a vida social na busca eterna por liberdade, igualdade e felicidade.
Há quase 20 anos atrás, seguindo o colapso total da União Soviética e o descrédito final do estado comunista, o cientista político americano Francis Fukuyama conjecturou que “nós podemos estar presenciando… não só o fim da Guerra Fria, ou o passar de um período particular de história de pós-guerra, mas o fim da história como tal: quer dizer, o ponto final da evolução ideológica da raça humana e a universalização da democracia liberal ocidental como a forma final de governança humana.” Duas décadas depois da publicação de O Fim da História e o Último homem, a tese de Fukuyama demonstra estar mais abalada do que nunca.
Isso para não repetir o clichê esquerdista de que o neoliberalismo está morto – como Slavoj Žižek assinalou, a ideologia já teve duas mortes, primeiro como tragédia, seguindo os ataques terroristas de 11/09, e depois como farsa, seguindo o colapso financeiro global de 2008 – mas para assinalar que o neoliberalismo como tal finalmente revelou o que sempre foi: uma ideologia zumbi mascarada com face de humanidade, assim como o famoso polvo vampiro de Matt Taibbi’s, “incansavelmente enfiando seu funil sanguinário em qualquer coisa que cheire parecido com dinheiro.”
O Imperador Neoliberal Está Nú
Enquanto os anos de 2001 e 2008 marcaram, respectivamente, as mortes política e econômica do neoliberalismo, 2011 marca o Fim do Fim da História. Porque só agora está ficando claro para as pessoas do mundo que, pelos últimos vinte anos, no estivemos vivendo simplesmente uma mentira. De fato, o implícito consenso popular que no passado legitimou o capitalismo democrático agora parece estar se desfazendo de maneira mais rápida do que o esquema Ponzi que sustentou a ilusão de sua superioridade moral. Depois de vinte anos de estagnação dos salários, acelerado crescimento da desigualdade, desemprego juvenil excessivo e difundida alienação social, o estouro da bolha de crédito global finalmente desvelou a nua essência do sistema.
O capitalismo de mercado livre democrático não é o que nos foi dito que era: como os anos recentes amplamente demonstraram, ele não é nem livre nem democrático. Guerras foram travadas em nome do Big Oil (grandes empresas petrolíferas) apesar da gritante oposição popular. Cortes de impostos foram feitos em favor do Grande Capital apesar do gritante déficit de orçamento. E agora, bancos em falência estão sendo resgatados e cortes draconianos no orçamento impostos em nome do Grande Capital Financeiro, apesar tanto da gritante oposição popular quanto da evidência incontestável que isso só faz piorar o déficit. O sistema deixou de fazer sentido. Suas contradições internas o estão corroendo por dentro.
Portanto, hoje, toda uma geração de pessoas jovens, desprovidas de esperança e oportunidade, está se levantando para constestar a noção absurda que esse estado de coisas desastroso constitui de alguma maneira o ápice da “evolução ideológica da raça humana.” É isto realmente o melhor que podemos fazer? É essa a ordem mundial utópica que Fukuyama previu quando anunciou a vitória eterna da democracia liberal e do capitalismo global sobre seus inimigos invisíveis? Com bancos falindo, países quebrando e dívidas privadas galopantes, o mundo ideal de Fukuyama certamente começou a parecer muito mais fraco agora que a farra de gastos abastecida por crédito que o sustentava caiu de cabeça em direção ao seu fim inevitável.
A magia acabou. O feitiço foi quebrado. E o que as pessoas do mundo estão tentando deixar claro para aqueles no poder é que nós sabemos. Nós sabemos que o s sistema está podre por dentro. Nós sabemos que o seu suposto sucesso não consegue passar por escrutínio. Nós sabemos que as suas grandes conquistas – do mercado global de capitais à moeda única européia – foram construídas em areia movediça financeira e institucional. E nós sabemos que a coisa toda está pra desabar como um castelo de cartas. Desde a Praça Tahrir a Times Square, de Madrid a Madison, de Santiago a Syntagma, nós sabemos que o imperador neoliberal está nu.
Gaddafi e Fukuyama: do lado errado da história
Um dos retratos mais ilustrativos do Fim do Fim da História é a morte sangrenta de Muammar Gaddafi. Enquanto céticos estão totalmente certos ao se revoltarem contra a campanha imperial da Otan na Líbia, muitos na esquerda ainda falham ao não ver o enorme simbolismo por trás da queda do Irmão Líder. Gaddafi, de alguma maneira, foi a última corporificação do Fim da História. Tendo chegado ao poder como um revolucionário socialista pan-arábico no final dos anos 60, ele terminou como um dos mais bem-sucedidos capitalistas. Enquanto ele continuou sua retórica de lamentar os maus do imperialismo ocidental, ele pareceu mais do que disposto à oferecer os espólios de seu país às mesmas forças neo-coloniais que ele tão avidamente ridicularizava.
De acordo com um relatório de 2008 publicado pelo Financial Times, Gaddafi “exaltava as virtudes das reformas capitalistas”. Tratando a Líbia como seu negócio familiar, ele agradava às Grandes Empresas Petrolíferas, distribuindo contratos lucrativos para corporações ocidentais como Eni e Shell. Depois disso ele permitiu que os lucros se acumulassem em seu fundo privado “soberano” enquanto empregava Wall Street para reciclar este capital excedente para obter lucros adicionais. No processo, enquanto o povo da Líbia permanecia seriamente prejudicado por seu subdesenvolvimento crônico, Gaddafi desviava $168 bilhões das riquezas da nação para o exterior. Não é de se surpreender que o Ocidente rapidamente ficou tão feliz de ser seu amigo.
Ainda assim, o que é mais revelador sobre a conversão repentina de Gaddafi de liberador socialista para opressor capitalista, não são seus fortes laços com o stablishment neoliberal do ocidente. O que é mais revelador é sua conexão pessoal com Francis Fukuyama. Nos anos de 2006 e 2008, Fukuyama fez parte de um grupo seleto de intelectuais que figuravam entre líderes mundiais contratados – e generosamente pagos – pelo Monitor Group, uma firma de Relações Públicas americana aconselhada por ex-diretores da CIA e da MI6 (inteligência britânica), para ajudar a limpar a imagem de Gaddafi no ocidente como parte de uma ofensiva charmosa concebida para ajudar a legitimar a incursão líbia no Fim da História. De acordo com documentos secretos vazados por ex-oficiais líbios, “Fukuyama fez duas visitas à Líbia (14-17 de agosto de 2006 e 12-14 de janeiro de 2007).”
Ele proferiu uma palestra no Greek Book Centre em Tripoli e lecionou uma aula sobre a Líbia na Johns Hopkins University (Maryland, Baltimore). Ele também proferiu uma palestra, entitulada “Minhas Conversas com o Líder”, que marcou “a primeira vez que O Livro Verde foi exigido como leitura aos estudantes em uma das escolas de política mais influentes no mundo.” Aparentemente, não somente nós, mas o próprio Fukuyama acreditava que Gaddafi era a corporificação do Fim da História. Sua queda, portanto, mesmo que nunca tivesse sido bem sucedida sem a ajuda militar imperialista do ocidente, refuta totalmente a tese de Fukuyama. Até porque, se realmente chegamos no Fim da História, como pode o autor dessa tese acabar ele próprio descaradamente no lado errado da História?
O colapso da zona do Euro como o Fim do Fim
No entanto Gaddafi não foi o único “erro” histórico de Fukuyama. Em reposta a alegações que o Fim da História era um argumento puramente Americocentrico, em 2007 Fukuyama escreveu um artigo para o Guardian reinvindicando retroactivamente que “O Fim da História nunca foi ligado a um modelo americano específico de organização social ou política… eu creio que a União Européia reflete de maneira mais precisa do que os Estados Unidos contemporâneo como o mundo irá se parecer no fim da história.” Ao julgar-se a partir do destino da União Européia, revela-se que Fukuyama, ironicamente, acabou por estar certo da maneira errada.
Como escreveu o New York Times outro dia, “o euro era um projeto político que visava unir a Europa depois do colapso soviético em uma esfera de prosperidade coletiva que levaria a um federalismo maior. Ao contrário, o euro parece estar dividindo a Europa… há uma tensão no sistema político e dúvidas sobre as instituições democráticas que nós não havíamos presenciado desde a queda da União Soviética.” A profunda integração européia, totalmente em linha com a filosofia do Fim da História, produziu uma situação tão assolada pela crise que o futuro da economia mundial agora depende do destino de um só membro da comunidade européia – um que responde a somente 2% do PIB total da União: Grécia.
Mas a Grécia é somente o canário na mina de carvão. É um sintoma, não a causa, da crise européia. Quando a Grécia der o calote, será apenas uma questão de tempo para que os investidores percam confiança na Itália e na Espanha. Ambos considerados grandes demais para quebrarem – mas também grandes demais para serem resgatados. O fundo de resgate europeu não é grande o suficiente para salvá-los, e Alemanha e França estão presas num entrave de como aumentá-lo. Ao mesmo tempo, o sistema bancário europeu insolvente está na iminência de um colapso. Um calote grego irá empurrar inúmeros bancos para a falência, forçando os governos centrais a distribuir mais uma vez resgates financeiros. Isto, por sua vez, irá agravar ainda mais o endividamento soberano e por conseqüência suas notas de crédito serão rebaixadas, trazendo a crise de débito “grega”para o coração do capitalismo europeu.
A conclusão, em outras palavras, é que não há escapatória fácil dessa crise – nem mesmo os tão invocados eurobonds, como recentemente Martin Wolf assinalou para o Financial Times. O euro, aquele grande projeto da elite que deveria ser o pináculo da integração européia, está vacilante. Em meio ao processo, as instituições tecnocráticas pós-ideológicas européias perderam suas últimas sombras de legitimidade que tinham. O edifício está caindo, e falando francamente, nossos líderes não tem nem idéia do que fazer. A crise da Europa, ao final, é a crise mundial. E está longe de ser uma crise meramente econômica: e bem lá no fundo, nós estamos enfrentando aquilo que Joseph Stiglitz chamou de crise ideológica do capitalismo. Isto está obviamente muito longe do “ponto final da evolução ideológica da raça humana.”
A crise do capitalismo e o retorno do reprimido
Não é surpresa, portanto, que 2011 tem visto a volta – como uma vingança – da crítica sistêmica do capitalismo. Nas últimas semanas, importantes publicações que suportam o livre-mercado como o Wall Street Journal, o Financial Times, Business Insider e Fortune admitiram que Karl Marx poderia estar certo sobre a tendência auto-destrutiva do capitalismo. O motivo para esse repentino ressurgimento da crítica político-economica Marxiana é dupla: primeiro, as elites começam a compreender que nós estamos prestes a entrar em uma outra Grande Depressão. E, segundo, a repressão sistemática da imaginação radical que o mundo pós-ideológico de Fukuyama ocasionou.
A esse respeito, uma linha direta pode ser traçada desde o slogan arrebatador de Margareth Tatcher, “não há alternativa”, até a política neoliberal em resposta a crise fincanceira. Enquanto banqueiros vêm acumulando remunerações recordes, ao resto da população é dito simplesmente que não há alternativa às medidas de austeridade draconianas. A narrativa ideológica é a mesma por todos os lugares: “nós estamos todos juntos nessa, todos nós precisamos apertar nossos cintos, mas a mensagem implícita é na verdade: “não ousem imaginar uma alternativa.” Ainda assim, como Matt Taibbi recentemente pontuou, um pequeno imposto de 0.1% em todas trocas de títulos e ações e um imposto de 0.01% em todas trocas derivativas poderiam pagar todos os resgates americanos, tornando muito do “necessário” aperto de cinto desnecessário. Esta é uma alternativa confiável bem aqui na nossa frente. Por que não está sendo discutida?
De volta ao ano de 2009, Fukuyama publicou um artigo na Newsweek com o título triunfante “A história continua terminada”, na qual ele afirma que, apesar do fato de “a crise ter começado em Wall Street – o coração do capitalismo global – … a legitimidade do sistema global pode ter sido arranhada, mas ainda não caiu.” Dois anos depois assistimos às ruas de Londres, Roma e Atenas pegando fogo, a ocupação pacífica de Wall Street, Puerta Del Sol, Syntagma, e centenas de outras praças ao redor do mundo; um dia de ação global sem precedentes em 15 de outubro, com protestos em quase 1000 cidades em mais de 80 países. Testemunhamos à raiva. A frustração. A indignação. Está aqui. A legitimidade está caindo. Fukuyama, parece, estava comemorando um pouco cedo demais.
No sentido freudiano, nós estamos presenciando o retorno do reprimido. Se você diz às pessoas durante duas décadas que não há alternativa ao mundo no qual elas vivem, e, ao mesmo tempo, tira suas rendas, seus direitos, seus serviços públicos, e toda dignidade que ainda lhes resta, você pode esperar que essa repressão psicológica do potencial revolucionário vai voltar de alguma forma cedo ou tarde. Se você reprime a coerente ideologia emancipatória das massas, assim como o Fim da História pretendeu fazer, você literalmente acaba tendo a incoerente e apolítica rebelião de Londres. Sobre isso, a coisa mais importante que as revoluções Tunisiana e Egípcia poderiam ter feito é relembrar a humanidade que na verdade há sim uma alternativa ao status quo – que realmente existe um “fora” do desmedido capitalismo global.
O levante dos indignados e a crise da democracia
As revoluções árabes encorajaram a juventude alienada da Europa e da América a começar a sonhar de novo, a reinvindicar sua imaginação radical em face de uma das maiores crises de legitimidade na história da democracia liberal. A medida que uma consciência crítica faz seu caminho de volta ao discurso mainstream, a hegemonia cultural do neoliberalismo se encontra novamente sob ameaça. Os primeiros sinais desta consciência crítica emergente começou a aparecer em Madrid em 15 de maio. Alguns dias mais tarde, a BBC noticiou que uma mobilização de estilo egípcio estava crescendo na Espanha. Após algumas semanas, centenas de milhares de pessoas de todos os tipos se reuniram ao redor do país enquanto o movimento dos indignados se espalhava pela Europa.
Em 17 de setembro, o movimento espanhol 15-M culminou em um dia global de ação contra os bancos e a ocupação de Wall Street, convocada pela revista anti-consumista canadense Adbusters. As manifestações de Wall Street subseqüentemente ajudaram a catalisar o próximo dia global de ação, convocados pelos manifestantes espanhóis para 15 de outubro. Sob o mesmo banner “unidos por uma mudança global”, a resistência mundial chegou a proporções sem precedentes, com protestos simultâneos acontecendo em 1000 cidades em mais de 80 países. Com sua declaração inocente que “ a legitimidade do sistema global não caiu,” Fukuyama mais uma vez se encontra no lado errado da história.
Afinal, se a democracia liberal é realmente o ápice da evolução ideológica da humanidade, como pôde acontecer que milhões de pessoas estão tomando as ruas do mundo todo exigindo algo diferente? Se a democracia representativa é o ápice, por que esses jovens estão cantando “não nos representam!”, e então por que eles gritam por uma democracia real no seu lugar? Como os movimentos de massa em Israel e no Chile demonstraram, o fenômeno não pode ser reduzido somente a crise, porque mesmo economias crescentes não conseguiram evitar que a onda de indignação inundasse as ruas de suas cidades. Na verdade, o problema vai muito mais além. Como os indignados gostam de cantar, “não é a crise, é o sistema.”
Zygmunt Bauman pôs o dedo no x da questão: enquanto a política permanceu nacional, o poder não desapareceu com os fluxos globais. Mudanças tecnológicas e reformas neoliberais conspiraram para criar uma situação na qual governos democraticamente eleitos não mais têm o poder de transformar suas promessas em políticas. Acabamos numa situação na qual votar não é mais escolher as políticas que nossos governos devem colocar em prática, mas sim sobre quem deve colocar em prática as políticas exigidas pelo setor financeiro. Chamar isso de democracia é absurdo. O levante dos indignados não é mais que a compreensão coletiva de que a democracia representativa liberal, sob condições de profunda integração econômica, não é nada liberal ou representativa. O Fim da História, ao contrário de uma democracia consolidada como a última forma de governança humana, foi totalmente solapado.
A beirada da história e o retorno da politica constestadora
O Fim do Fim da História não é o mesmo que o fim do neoliberalismo. Como já vimos antes, ideologias zumbis têm o seu modo de permanecer além de sua data de validade. Enquanto houver capitalistas (ou candidatos a capitalistas), sempre haverá uma forma ou outra de filosofia capitalista. O Fim do Fim da História não é tanto sobre a erradicação da visão de mundo individualista do capitalismo, que é impossível sem recorrermos ao tipo de tática de estado repressivo que nós estamos tentando superar, mas sobre a volta da política contestadora como característica definidora da vida social. Em outras palavras, o Fim do Fim da História não é tanto sobre superação da luta política mas a descoberta de que, por definição, nós nunca podemos superar a luta política. Enquanto houver injustiça, haverá luta – e partir do fato que sempre haverá injustiça, sempre haverá luta.
O fim da história, portanto, não é nem possível nem desejável. O anseio por um estágio final de desenvolvimento institucional e ideológico é, ou puramente totalitário, ou puramente utópico. Enquanto certos anseios utópicos podem nos inspirar a nos elevarmos às mais altas esferas enquanto espécie, nós sempre teremos que nos lembrar que nenhuma ordem social é dada para sempre. Nossa Utopia deve sempre ser o desejo do espírito que nos põe em ação, mas nós temos que admitir o fato de que ela nunca pode se tornar uma realidade. A história simplesmente nunca acaba. Como o escolar neo-Gramsciano Stephen Gill colocou, “a história está sempre no fazer, num jogo dialético entre agente, estrutura, consciência e ação.” Ou, como o Subcomandante Marcos expressou de maneira mais poética, a luta é como um círculo: você pode começar em qualquer lugar, mas ela nunca pára.”
Em um excelente editorial do Guardian outro dia, Jonathan Jones observando uma foto de Ocuppy Wall Street fez a seguinte observação arrebatadora:
“Esta é uma fotografia de um ponto de virada na história, não porque o movimento Occupy necessariamente obterá sucesso (qualquer sucesso que possa ser) mas porque ela revela a profundidade de novas possibilidades de debate em um momento que tão recentemente pareceu concordar sobre fundamentos econômicos. Occupy Wall Street e o movimento global que ele inspira pode ainda se provar como um efetivo chamado à mudança, ou pode ser apenas fogo de palha. Não é esta a questão. E também pouco importa se o protesto está certo ou errado. O que importa é que o capitalismo desmedido, uma força que por seu dinamismo econômico parecia inquestionável, acima de reprovações ou reformas, um monstro que nos acostumamos a ser gratos por existir, repentinamente encontra toda sua feiúra amplamente comentada, exposta em meio às luzes de Times Square. O imperador da economia está nú.”
“Este é um momento inacreditável”, ele continua. “Se belisque”. O ano de 2011, com todas suas crises e revoluções, marca o que Slavoj Žižek em sua fala no Zuccotti Park, chama de “o acordar de um sonho que está se tornando um pesadelo.” Marca o retorno da política contestadora. E, com isso, marca o Fim do Fim da História. Não que a história tenha parado por algum instante sequer – nós apenas ficamos confusos por um tempo por conta do colapso do arqui-rival do capitalismo, e pensamos que a história havia parado. Mas o fato é que a história que continua a se fazer está sendo capturada nas notícias de jornal, nas fotografias poderosas, e nas palavras de um uma simples senhora de classe-média grega durante a greve de 48 horas de outubro: “Eu nunca fui de esquerda,” ela disse, “mas eles nos forçaram a tornarmos extremistas.” Quando o sistema força pessoas comuns a se tornarem revolucionárias, você sabe que não está mais no Fim da História. Você está bem na sua beirada.
Um homem morreu depois que os confrontos entre anarquistas, comunistas e tropa de choque eclodiram enquanto o Parlamento Grego impunham decisivo voto de austeridade.
Enquanto o Parlamento se preparava para um voto crucial sobre medidas adicionais de austeridade – inclusos os mais drásticos cortes e reformas até agora, nova onda de violência eclodiu nas ruas de Atenas. Sem o voto, o governo de Papandreou não teria recebido a próxima parcela do pacote de resgate da UE e do FMI e entraria em falência no mês que vêm.
Em antecipação à votação, uma greve de 48 horas levou o país a uma imobilização completa, enquanto que a maior manifestação singular desde a queda da junta militar enviou centenas de milhares de pessoa para a Praça Syntagma e ruas ao redor. Pela primeira vez, o partido e sindicato comunistas, KKE e PAME, se uniram aos protestos ao bloquearem o Parlamento para impedir que os parlamentares fossem capazes de entrar no prédio para a votação.
Carregando bastões com bandeiras vermelhas e usando capacetes, os sindicalistas formaram uma corrente humana em volta do Parlamento. No processo, porém, eles acabaram defendendo o estado contra a multidão enfurecida. Ao invés de apontar sua raiva para os políticos, eles os protegeram. A tropa de choque pôde então assistir tranquilamente os dois lados se confrontarem. Dúzias de pessoas se feriram durante os confrontos. Um homem mais velho sofreu um ataque do coração depois de ser atingido por uma pedra na cabeça. Ele morreu no hospital.
De acordo com rumores, a polícia teria na verdade se infiltrado entre os manifestantes – do lado dos comunistas ou dos anarquistas, dependendo de quem você perguntasse – para instigar o confronto interno esquerdista. A verdade, no entanto, é que a Esquerda Stalinista e a Esquerda anti-autoritária na Grécia possuem uma longa história de antagonismo. Apesar da compreensiva discordância mútua, a divisão em si mesma permanece um impedimento lamentável à criação de um fronte revolucionário uníco. Agora, mais do que nunca, nós precisamos nos tornar e estarmos unidos.
Perto do final do segundo vídeo abaixo (no link da fonte), membros do sindicato Stalinista podem ser claramente vistos falando com a polícia e pedindo que eles ataquem manifestantes anarquistas. Houve um nível repugnante de colaboração entre comunistas e polícia – uma tentativa de colaboração para defender os últimos vestígios do estado grego – e os manifestantes estavam certos de se revoltarem com isso. Mas atirar pedras e bombas de gasolina em companheiros de manifestação? Seguidos a morte de três pessoas em um ateamento de fogo a um banco ano passado e agora a morte de um membro do sindicato comunista, é hora de os anarquistas reverem o uso de atos de violência como estratégia de protestos.