Discurso de Slavoj Žižek na ocupação

Em 9 de setembro, o filósofo esloveno Slavoj Žižek falou para os indignados de NY.

“Na crise financeira de 2008, mais propriedade privada duramente conquistada foi destruída do que se todos nós estivéssemos a destruindo aqui dia e noite por semanas. Eles nos falam que nós somos sonhadores. Os verdadeiros sonhadores são aqueles que pensam que as coisas possam prosseguir indefinidamente da maneira que estão. Nós não somos sonhadores. Nós estamos despertando de um sonho que está se tornando um pesadelo. Nós não estamos destruindo nada. Nós estamos apenas testemunhando como o sistema está destruindo a si mesmo. Nós todos conhecemos a cena clássica dos desenhos. O carro se aproxima de um precipício. Mas ele continua andando. Ignorando o fato de que não existe nada abaixo dele. Apenas quando ele olha para baixo e o percebe, ele cai. É isto o que nós estamos fazendo aqui. Nós estamos falando para os caras lá em Wall Street—Ei, olhem para baixo! (aplausos).

Em Abril de 2011, o governo Chinês proibiu na TV, filmes e novelas todas as histórias contendo uma realidade alternativa ou viagem no tempo. Este é um bom sinal para China. Isto significa que as pessoas ainda sonham quanto a alternativas, então você precisa proibir este sonho. Aqui, nós não pensamos em proibição. Porque o sistema governante até mesmo já suprimiu nossa capacidade de sonhar. Vejam os filmes que nós assistimos a todos os momentos. É fácil imaginar o fim do mundo. Um asteróide destruindo toda a vida e por aí vai. Mas você não consegue imaginar o fim do capitalismo. Então, o que nós estamos fazendo aqui? Deixe-me contar-lhes uma velha piada maravilhosa dos tempos comunistas.

Um cara foi enviado da Alemanha Oriental para trabalhar na Sibéria. Ele sabia que seu correio seria lido pelos censores. Então, ele falou a seu amigo: Vamos estabelecer um código. Se a carta que você receber de mim estiver escrita em tinta azul, é verdade o que eu disse. Se estiver escrita em tinta vermelha, é mentira. Depois de um mês, seu amigo recebe a primeira carta. Tudo está em azul. Esta carta diz: tudo é maravilhoso aqui. As lojas estão cheias de boas comidas. Cinemas mostram bons filmes do Ocidente. Os apartamentos são grandes e luxuosos. A única coisa que não podemos comprar é tinta vermelha.

É assim que nós vivemos. Nós temos todas as liberdades que queremos. Mas o que nós não temos é tinta vermelha. A linguagem para articular nossa não-liberdade. A maneira como nós somos ensinados a falar sobre liberdade, guerra, terrorismo e por aí vai, falsifica a liberdade. E é isto o que vocês estão fazendo aqui: Vocês estão nos dando tinta vermelha.

Existe um perigo. Não apaixonem-se por vocês mesmos. Nós temos bons momentos aqui. Mas lembrem-se: carnavais saem baratos. O que importa é o dia depois. Quando nós teremos que retornar para nossa vida normal. Haverá alguma mudança então. Eu não quero vocês lembrem-se destes dias, vocês sabem, como—oh, nós éramos jovens, foi maravilhoso. Lembrem-se que nossa mensagem básica é: Nós temos permissão para pensarmos em alternativas. A regra se quebrou. Nós não vivemos no melhor dos mundos possíveis. Mas existe uma longa estrada à frente. Existem questões verdadeiramente difíceis que nos confrontam. Nós sabemos o que nós não queremos. Mas o que nós queremos? Que organização social pode substituir o capitalismo? Que tipo de novos líderes nós queremos?

Lembrem-se: o problema não é a corrupção ou a ganância. O problema é o sistema que o empurra em direção a desistir. Tenham cuidado não apenas com os inimigos. Mas também com falsos amigos que já estão trabalhando para diluir este processo. Da mesma maneira que você consegue café sem cafeína, cerveja sem álcool, sorvete sem gordura. Eles tentarão fazer deste um protesto moral inofensivo. Eles acham (??? Inteligível). Mas a razão de estarmos aqui é que nós já nos cansamos do mundo onde para reciclarmos latas de coca-cola…

… cappuccinos do Starbucks. Onde 1% vai para as crianças que passam fome no mundo. É o suficiente para nos fazer sentirmo-nos bem. Depois da terceirização do trabalho e da tortura. Depois das agências de casamento estarem agora até mesmo terceirizando nossa vida amorosa, diariamente.

Nós podemos ver que, por um longo período, nós também permitimos que nosso engajamento político fosse terceirizado. Nós o queremos de volta. Nós não somos comunistas. Se o comunismo significa o sistema que entrou em colapso em 1990, lembrem-se que hoje, aqueles comunistas são os mais implacáveis capitalistas. Na China hoje, nós temos um capitalismo que é ainda mais dinâmico que o seu capitalismo Americano, mas que não precisa de democracia. O que significa que quando vocês criticam o capitalismo, não deixem vocês serem chantageados ao dizerem que vocês são contra a democracia. O casamento entre democracia e capitalismo acabou.

A mudança é possível. Então, o que nós consideramos que seja possível hoje? Apenas vejam a mídia. Do lado da tecnologia e da sexualidade, tudo parece ser possível. Você pode viajar para a Lua. Você pode se tornar imortal através da bioengenharia. Você pode ter relações sexuais com animais, ou seja lá com o que. Mas olhem nos campos da sociedade e da economia. Lá, quase tudo é considerado impossível. Vocês querem elevar os impostos apenas um pouco para os ricos, e eles o dizem que é impossível, nós perderemos competitividade. Vocês querem mais dinheiro para a saúde: eles o dizem que é impossível, que isto significa um estado totalitário. Existe algo de errado no mundo onde lhe prometem ser imortal, mas no qual não se pode gastar um pouco mais com a saúde. Talvez isso… (???)… leve nossas prioridades à frente. Nós não queremos padrões de vida mais altos. Nós queremos padrões de vida melhores. O único sentido no qual nós somos comunistas é no daquele que nós nos importamos com os comuns. Os comuns da natureza. Os comuns daquilo que é privatizado pela propriedade intelectual. Os comuns da biogenética. Por isso, e apenas por isso, nós deveríamos lutar.

O comunismo falhou absolutamente. Mas os problemas dos comuns estão aqui. Eles estão lhes dizendo que vocês aqui não são Americanos. Mas os conservadores fundamentalistas que clamam serem realmente Americanos precisam se lembrar de algo. O que é o Cristianismo? É o Espírito Santo. O que é o Espírito Santo? É uma comunidade igualitária de crentes que estão ligados pelo amor um ao outro. E aquele que possui apenas a sua própria liberdade e responsabilidade para fazê-lo. Neste sentido, o Espírito Santo está aqui agora. E lá embaixo, em Wall Street, estão os pagãos que estão adorando os ídolos blasfemos. Então, tudo o que precisamos é de paciência. A única coisa da qual eu tenho medo é a de que nós iremos, algum dia, apenas irmos para casa e então nos encontraremos uma vez por ano, bebendo cerveja, e nostalgicamente lembrando que bom momento nós tivemos aqui. Prometam a vocês mesmos que este não será o caso.

Nós sabemos que as pessoas freqüentemente desejam algo, mas não o querem de verdade. Não tenham medo de realmente quererem aquilo que vocês desejam. Muito Obrigado!”

O discurso original está no site Occupy Wall Street.

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