Por fora, temos um saldo positivo jamais imaginado. De acordo com jornais locais, 67% da população de Nova Iorque manifesta aprovação ao que estamos fazendo. Ocupações se reproduzem pelo mundo inteiro. O país inteiro está discutindo o porque que essa gente está indignada. Estamos no parque, temos enorme estrutura, agora contando com as tão esperadas barracas, que finalmente nos protegem da chuva e do frio, e a polícia de NY nem se atreve mais a tentar remove-las.
Porque então, internamente o dia de ontem pareceu de pessimismo?
A cozinha e a estação de conforto ameaçaram cancelar suas atividades durante 3 dias, em resposta a um potencial descontrole sobre a ocupação.
Foi um dia de questionamento e debate, cujas respostas ainda não encontramos.
O tamanho da Liberty Plaza quase não comporta mais a quantidade de pessoas que frequentam ela quotidianamente. Entre turistas e curiosos, a atual preocupação é sobre quem são as pessoas que estão usufruindo dessa estrutura mas sem compromisso nenhum com a manutenção dela. Sinceramente, são muitas.
Outro problema que desmoraliza o grupo cada dia mais é a quantidade de roubos e brigas (até agora verbais) que estão ocorrendo na praça. Onde antes nos sentíamos em casa, agora mal posso dormir com a certeza de que na manhã encontrarei meus sapatos (Da última vez eles foram roubados!). Outro caso vergonhoso que assisti ontem foi quando o repórter do canal “Press TV”, ao mesmo tempo em que fazia uma cobertura super favorável a nossa causa, teve sua mala roubada com seu laptop dentro.
Sim, internamente estamos diante de um grande desafio:
Como lidar com estes problemas que são resultado deste mundo que queremos mudar?
As últimas ocorrências na Liberty Plaza refletem a sociedade em que vivemos, e não a que a OWS criou. Já antecipo a cobertura que a grande mídia já começa a fazer destes casos, citando coisas como “OWS não dá conta nem de sua própria casa”, ou que estamos apenas reproduzindo a lógica que domina lá fora. A estrutura convidativa e aberta da ocupação sempre permitiu que qualquer um participasse, da maneira que quisesse. Isso é um processo inclusivo. Recebemos na praça pessoas de diferentes caminhadas de vida, e uma grande parte delas vieram de uma caminhada de exclusão. Essa exclusão provoca paradoxos que temos que enfrentar a cada dia das nossas vidas. Quem disse que não enfrentaríamos isso WalL Street? Ontem ao dar a entrevista de 2 minutos para a Press Tv sobre esse caso, não tive tempo de expor todo este pensamento, saiu na TV ao vivo para a Europa inteira apenas a nossa preocupação com a praça. Mas esta praça existe para escancarar o mundo em que vivemos, e esta situação insegura e desconfiada é um importante aspecto dele. Que o mundo inteiro saiba e se responsabilize.
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O relato é de Vanessa Zettler, que está na ocupação em NY desde os primeiros dias do movimento.
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